Dona Natalina

                                                                   
         Ela
nasceu há oitenta anos, e naquela época era costume dar o nome do santo ou da santa
do dia ao recém-nascido. Como vocês já perceberam, ela veio ao mundo no dia de
natal. Seu pai queria chama-la de Jesuína, em homenagem ao aniversariante da
data, mas a mãe não deixou.
         Uma
vizinha, que na juventude conhecera um marinheiro inglês, opinou que Nataly
seria a grafia ideal para o nome, pois um dia talvez a criança seguisse a
carreira artística, e não trocaria de nome.
         Dona
Garda, que nascera no dia de Santa Emengarda, não quis nem saber; – “É
Natalina, sim senhor! Poderíamos chama-la de Noela, talvez…”, nem completou a
frase, pois todos concordaram que Natalina era um ótimo nome.
         Natalina
cresceu risonha, amável, bondosa, igual à todas as crianças que vem ao mundo no
aniversário de Jesus. Quando começou a entender das coisas, tudo mudou; jamais
cantaram parabéns para ela em uma sala de aula, seu aniversário caia nas férias
escolares. Presentes do Papai Noel? Nem pensar! Bastava o presente de
aniversário, e olhe lá!
         Namorou
com Damião, irmão gêmeo de Cosme; no dia do casório Damião fugiu com Lindinha
Silva, amiguinha inseparável de Natalina, e que não tinha nome de santa. Não
teve barraco; casou com o Cosme, irmão de Damião, um rapaz trabalhador, e que
arrastava uma asinha para Natalina, pois fora ele quem a paquerara pela
primeira vez. Como era a cara do irmão gêmeo, que adorava aprontar, muitas
vezes o tinhoso do mano Damião se passava por Cosme.
         Parece
uma história banal, mas não é! Cada vida segue um roteiro; somos todos
personagens. Poucas pessoas nascem em palácios, gente de sangue azul é
raridade. Ninguém nasce para ser bandido ou mendigo; são as escolhas que
encaminham o nosso destino.
         Dona
Natalina completou oitenta anos. Se tivessem lhe dado o nome de Nataly quem
sabe seria uma atriz. Jesuína, lembra sofrência, cruz pesada, difícil de
carregar. Noela? Sei não! Será que um nome muda o destino? Tenho minhas
dúvidas! A velha Madame Hildegard Hannover de Andradas e Silva, também
completou oitenta anos, quase uma lenda na alta sociedade, apareceu na tevê;
foi presa como estelionatária… Seu nome verdadeiro; Lindinha Silva.
Gastão Ferreira/2016

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