A lenda do Bagre do
Ribeira
         Em
1492 a Idade Média chegou ao fim, e teve início à Renascença; foi neste período
da história universal que o Brasil foi descoberto e Iguape fundada. O movimento
chamado Renascimento se estendeu do século XIV ao século XVI, e foi marcado
pelas grandes transformações que culminaram com a idade moderna; Iguape em seu
nascedouro conviveu com o final da idade das trevas, do obscurantismo, da magia
e da Santa Inquisição.
         Naquela
época, início do século XVI, toda a freguesia que prestava tinha a sua
feiticeira, a sua bruxa de estimação, a curandeira, a mandingueira que usava de
encantamentos para curar ou matar. Segundo o “Livro dos Piratas da Barra”,
nossa feiticeira de plantão se chamava Euzênia, e morava próximo ao Itaguá.
         Euzênia,
filha caçula da mais famosa feiticeira que habitou as terras caiçaras, a bela e
imortal Fabíola, ficou conhecida pelo seu gênio pacífico e vontade de ajudar as
pessoas; versada no uso de ervas medicinais, curou muita espinhela caída, dor
dolhos, pereperê, mordida de cobra, cobreiros, sarna e outras doenças caiçaras.
         Quando
o filho do coronel Isidoro de Alencastro Mattos se apaixonou pela escrava
indígena Anacy Catu, o coronel recorreu aos serviços de Euzênia para pôr um fim
ao romance. A feiticeira se negou a fazer a maldade exigida, e Isidoro começou uma
perseguição sem trégua; o coronel com o auxílio do clero local, buscou a Santa
Inquisição, que de santa não tinha nada, e o mal falou mais alto na pacata vila
de Iguape.
         O
casebre de Euzênia foi incendiado, a moça só escapou porque Eustáquio, o filho
do coronel de Alencastro, ficou sabendo da maldade e se adiantou aos capangas
do pai, mesmo assim uma índia velha que ajudava Euzênia pereceu queimada, os
sequazes acharam que o corpo era o da feiticeira e deram o trabalho por
encerrado.
         Em
sua sanha assassina, o poderoso coronel, trucidou pessoalmente a escrava Anacy
Catu. Este gesto provocou o ressentimento do filho, o qual pediu, rogou,
implorou que Euzênia o auxiliasse; a maga usou seu conhecimento, e transformou
Eustáquio em um grande peixe, o lendário Bagre do Ribeira, um imenso bagre de
quase dois metros de comprimento, que por décadas assustou ribeirinhos e
pescadores.
         Com
a morte violenta da bela Anacy Catu, os indígenas se revoltaram, massacraram o
restante da família do coronel Isidoro, e seus agregados; a coisa foi tão feia
que a história nem guardou o nome do coronel, e os padres da Santa Inquisição
abandonaram a freguesia para nunca mais voltarem.
         O
Bagre do Ribeira sobreviveu por séculos, procriou e seus descendentes foram
viver no mar, mas uma vez por ano voltam ao Rio Ribeira para desovarem na
piracema; Euzênia foi conhecer o mundo, andou por muitos lugares, sempre jovem,
a feiticeira imortal se formou em medicina e atualmente presta serviço em…
Bom, essa é outra história.
Gastão Ferreira/2019          

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