A hora da escuridão
          
         As
nuvens foram se achegando, vindas dos caminhos do mar; como negras feras
cercaram a cidade, qual tropa de cavalos selvagens galoparam por sobre a
montanha, espiando as casas, os ninhais, os arvoredos. Em bandos, iguais aos negros
biguás, cobriram as águas do lagamar; era a noite que se apossava da Princesa,
a cidade indefesa estava totalmente sitiada.
         Na
Praça da Matriz, os pedintes que dormiam no entorno do santuário murmuravam
estranhas palavras entre si, as palavras soltas e sem sentido andavam pelas
calçadas, tropeçavam nas guias das ruas, nas soleiras dos casarões, assustavam
os cães vadios e os poucos passantes; pareciam perdidas dentro da escuridão.
         Nenhuma
menina moça veio espiar das janelas a chegada da noite; o tempo das donzelas
ficara no passado, as casas antigas guardavam lembranças de serestas e saraus.
O sino da Matriz badalou mecanicamente, mas sua memória de bronze ainda sentia
as mãos dos muitos sacristãos puxando as suas cordas e anunciando o fim de mais
um dia.
         Os
pescadores recolheram os apetrechos de pescas, as canoas foram amaradas a
margem do canal, as brancas garças voltaram todas aos manguezais; no meio das
águas alguns robalos saltavam curiosos, espreitando os últimos vestígios do pôr
de sol. 
Aquela noite
ficou marcada para sempre, era a noite da Sexta-feira da Paixão; noite em que
todos os demônios estavam livres para tentarem os filhos dos homens, a noite
mitológica em que Pandora abrira a caixa de todos os males, a noite em que o
gigante Prometeu foi acorrentado e o Filho de Deus crucificado.
         Enquanto
os filhos de Adão se trancavam em suas casas, e as mulheres se juntavam para
rezarem, e pedir perdão pelos muitos e imaginários pecados, os velhos contavam
suas histórias às irrequietas crianças; histórias que vinham de antes do nascer
dos dias. História dos tempos em que Tupã, o Pai de Todos, era o Senhor de
Pindorama. Causos de encantados que habitavam os nossos rios, lagamar,
montanhas, fontes e regatos. Relatos de pescadores que se apaixonaram pelas
Iaras, as morenas sereias da Terra das Palmeiras.
         E
dentro da escuridão, no coração das trevas, Anhangá sorria; – “O bicho homem
tem medo! O bicho homem teme a verdade…”, os Sacis, os Curupiras, os Índios
d’água, todos os seres encantados concordaram… Tupã riscou o céu com seu
raio, e o trovão ribombou, a Natureza se aquietou e a chuva chegou trazendo
vida, tudo era silêncio, parecia que a própria noite também dormia, amanhã um
Deus voltará à vida; amanhã será o Sábado de Aleluia, amanhã o homem será
salvo, amanhã a vida recomeça… Amanhã terá fim a escuridão.
Gastão Ferreira/2019
        
           

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