A casa das almas
penadas
         Eu
conheço aquela casa desde sempre, era a única em que a molecada do sitio nunca
brincava por perto; meu avô tinha pavor daquelas ruínas, e dizem que ele foi o
último vivente a espiar o imóvel por dentro, e sobreviver. Vovô nasceu no
início do século XX, ele devia estar com uns cinco anos quando Francisquim se
suicidou… 
         Francisquim
era um rapaz valente, não levava desaforo para casa, sem medo de nada; quando
ficou sabendo que quem entrava sozinho naquela velha casa abandonada nunca mais
saia, não acreditou e foi conferir…. Deu no que deu, seu corpo foi encontrado
dependurado pelo pescoço, bem no meio da sala.
         Após
o trágico acontecimento, muitas pessoas viram Francisquim na entrada das
ruínas, e sempre acompanhado daqueles fulanos que tiraram a própria vida.
Ninguém da vila passava frente à casa depois das 22 horas, mas ocorreu de dois rapazes
e uma moça da cidade grande passarem por aqui e eles resolveram pernoitar na
casa para provar aos sitiantes que essa coisa de assombração é pura bobagem,
invenção para assustar gente humilde… 
         Eram
em três pessoas, chegaram à tardinha, deram uma geral na limpeza da sala, o
isopor cheio de cerveja, entre risos e chacotas ficaram na espera dos
acontecimentos. Cerveja vai, cerveja vem, um pouco de vodca e cachaça, o sono
chegou e apagaram…
         Despertaram
com o som de uma viola, e bem no meio de um arrasta-pé; a sala estava lotada, o
baile animado, os dançarinos um horror. Faces macilentas, olhos saltados,
roupas esfarrapadas, todos com um toco de corda em volta do pescoço, um cheiro
de carniça empesteava o ambiente. Apavorados os jovens tentavam sair do imóvel;
– “Nem pensar! Quem entra não sai. ”, disse alguém.
         Os
três, se borrando de medo, apavorados, trêmulos, arrependidos das bravatas
proferidas, pediam por amor de Deus que não os matassem, pois eram jovens e
queriam viver, foi quando Francisquim se aproximou, e arrancando o boné da
cabeça de Betinho, um dos rapazes, disse; – “É o preço que pagarão pela dúvida,
pelo descrer, pelo pouco caso com que tratam o desconhecido, eu duvidei e
paguei o preço…”
        
“Quem é você? ”, alguém perguntou.
        
“Eu sou Francisquim, e fui enforcado por essas almas penadas aqui dentro desta
casa…”
        
“Então, todas estas pessoas são almas penadas? E que fazem aqui nesta casa
abandonada? ”
        
“São espíritos de suicidas e de assassinos, gente que não encontraram a paz, um
caminho para os lugares felizes, pessoas do mal e que continuam aprontando após
a morte física…”
        
“Mas, que fazem entre as ruínas da casa abandonada? ”
        
“Descansam da caminhada diária, só a noite se reúnem aqui, mas eu fui morto
aqui dentro e não tenho permissão para sair além do terreno que cerca a casa, a
menos que alguém vivo me resgate…”
        
“Estas almas não tem poder suficiente para matar mais do que uma pessoa, na
verdade vocês três não correm perigo, e desde já agradeço a presença, pois
serão os meus salvadores…”, disse isso e se abraçou em Betinho…
         A
porta se abriu e os três saíram correndo, esbaforidos bateram na porta de nossa
casa, tremiam feito vara verde, aos prantos contaram o acontecido; ninguém
acreditou.
         Pela
manhã, papai lembrou das histórias de vovô e contou aos jovens o causo de
Francisquim…. Quando mencionou o nome Francisquim, os três empalideceram, e
pediram para papai mostrar onde Francisquim estava enterrado.
         Foram
até o cemitério do sítio, e sobre o túmulo abandonado de Francisquim, no braço
carcomido da cruz de madeira, estava o boné de Betinho, o boné que Francisquim
tinha tirado de Betinho e colocado na própria cabeça. Os três se ajoelharam e
fizeram uma prece, pedindo a Deus que concedesse paz ao espírito de
Francisquim… Uma brisa soprou, e todos ouviram um suspiro no ar da manhã, e o
vento murmurando; – Muito obrigado, estou em paz!
Gastão Ferreira/2019  
 

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