A árvore dançarina
         As
Iaras são as sereias dos rios de Pindorama, nossas ninfas das águas, encantam
os pescadores e os ribeirinhos, depois os levam para o fundo de um remanso,
onde os afogam e lentamente os devoram; assim falou o pajé.
         Paiakam
não acreditava nas lendas indígenas, eram coisas de seus antepassados, bugres
sem instrução, sem internet e sem celular; ele e Indaiá, sua namorada, sorriam
a cada causo contado pelo velho pajé. Até parece que Tupã, com tanta mata e
animais selvagens para zelar, estaria preocupado com o que ele e Indaiá
pensavam…
         Deitados
a margem do rio Suamirim espiavam um bando de biguás, o silêncio foi cortado
pelos gritos de um quero-quero, e quando um quero-quero grita, é que alguém
está se aproximando; olharam ao redor e nada avistaram além da mata virgem, dos
biguás, das brancas garças e alguns gaviões, foi quando Indaiá falou; – “Paiakam,
de onde será que vem esta melodia? ”
         Alguém
cantava, e encantava; o casal jamais escutara uma voz tão doce, tão afinada,
tão bela de se ouvir; – “A cantiga está vindo do rio. ”, disse Paiakam
         Ao
se aproximarem da margem, eles a avistaram; longos cabelos cor de algas, pele
morena, olhos negros. Estava sentada sobre uma pedra que sobressaia das águas;
cantava e mexia com as mãos como se manipulasse fios invisíveis, e os fios
atraiam Paiakam para dentro do rio; – “É uma Iara, Paiakam! Não entre na água.
”, pediu Indaiá.
         Paiakam
não conseguia se livrar do encanto, agora sabia que o sortilégio realmente
existia e funcionava; mentalmente a sereia transmitia imagens tentadoras, e a
vontade de partilhar de tantas maravilhas chamava Paiakam, e ele tentava
reagir, mas não conseguia…
         Indaiá
tentou de tudo para impedir que Paiakam entrasse no rio, pois sabia que ele
jamais retornaria das águas. Indaiá desafiava abertamente a mãe das águas, e
então ela viu; a Iara se levantou da pedra; metade mulher, metade peixe.
Apontou um dedo para Indaiá e a curumim ficou imobilizada; seus pés se
transformaram em raízes, seus braços em galhos, Indaiá se tornara em mais uma
árvore na margem do rio Suamirim…
         A
última imagem que Paiakam notou, antes de ser puxado para o fundo do rio, foi
Indaiá com os braços levantados, tentando salvá-lo do perigo, braços que
lembravam uma árvore, uma árvore dançarina…
         “As
Iaras são as sereias dos rios de Pindorama, nossas ninfas das águas, encantam
os pescadores e os ribeirinhos, depois os levam para o fundo de um remanso,
onde os afogam e lentamente os devoram, e foi assim que a Iara levou Paiakam
para seu reino encantado, e transformou Indaiá em uma árvore dançarina, aquela
que está bem ali, na margem do rio Suamirim; meninos, muito cuidado! Se ouvirem
alguém cantar perto da água, se afastem imediatamente”, pediu o velho pajé.
Gastão Ferreira/2019

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