Memória

        
 Quando
ela chegou, a sala estava vazia; havia apenas uma cadeira junto à janela e da
janela se avistava a pracinha. Na parede nua um retrato chamava a atenção; era
a foto do casamento de vovó Esmeralda e vovô Eusébio, que abraçados pareciam dar
as boas vindas. Tiveram três filhos; tio Romildo, tia Cotinha e minha mãe
Luiza.
         Vovô
trabalhava no porto, era carregador de navios e dava um duro danado para
alimentar a família; vovó ajudava com a venda de salgadinhos e tio Romildo,
criança ainda, era o entregador dos quitutes.
         Tio
Romildo seguiu os passos de vovô Eusébio, gostava de navios e sonhava em
conhecer o mundo, foi piloto de barcos de pesca até o fim da vida e pouco se
afastou da vila. Quem realmente viajou por muitos mares foi tia Cotinha; ela
casou com um comerciante de secos e molhados, e no dizer de minha mãe, o marido
de titia era muito rico e quando ela nos visitava trazia muitos presentes.    
         Mãe
Luiza casou com papai Honório e ficaram morando na casa de vovó e vovô, tiveram
cinco filhos. Fui uma criança feliz e cresci entre pés de cajamangas, goiabas e
pitangas. Meus irmãos casaram e foram para lugares distantes. Vovó Esmeralda
morreu bem velhinha, foi ao encontro de vovô Eusébio. Os cabelos de mamãe Luiza
ficaram brancos de tristeza, saudade dos filhos que jamais voltaram, desgosto
pelas muitas bebedeiras de papai Honório, vergonha pela vida dissoluta de tia
Cotinha que na verdade nunca casou e foi dona de bordel numa cidade grande, mas
que ajudava a família sabendo que o ouro cobre todas as desavenças.
         Quando
mamãe Luiza partiu fiquei sem chão. Graças a Deus, Pedro meu marido, era um
homem bom e cuidava com desvelado amor por nossa família. Meus filhos foram a
minha alegria; crianças comportadas, adolescentes estudiosos, adultos de bem
com a vida, todos formados, honestos e trabalhadores.
         Estou
com noventa e sete anos, sou bisavó e por vezes minha mente foge para lugares
distantes. Para aonde vou não existe tempo, misturo tudo e a realidade e as
fantasias me visitam… Fecho a janela e apago a pracinha… Na sala vazia a
cadeira desapareceu… Na parede antiga o retrato de casamento de vovó e vovô
se despede dos meus olhos cansados… Memória de tempos felizes.
Gastão Ferreira/2015 

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