Meu amigo Humilde

         Finalmente
mais um fim de semana na cidade grande; meu dono e melhor amigo conseguiu uma
carona e mal cheguei à Feirinha do Produtor Rural fui espiar as novidades.
Cidade grande é tudo de bom! O primeiro conhecido que eu avistei foi o cão
Humilde. Milde foi adotado por um morador de rua e aprendeu desde filhote a
fazer carinha de triste, carinha de fome e carinha de carente para os ricos da
cidade. O moço pedinte, Dito Noinha, que adotou o Humilde enjeitou uma boa
grana pelo cachorro e não quis vendê-lo, afirmando que o cão Milde era parte de
seu ganha pão diário.
         Conversando
com Humilde descobri que Dito Noinha fatura quase cem Reais por dia; para cada
dez pessoas que ele pede dinheiro, duas dão cinqüenta centavos. No final do
expediente após achacar duzentos cidadãos ele obtém cem Reais. Duvidei e
Humilde provou!
         Fomos
seguindo Dito Noinha, e ele parou educadamente uma mulher que descia de um
carro para fazer compras na Feirinha Rural. Noinha foi super gentil: – “Licença
madame! Espero não estar incomodando a senhora; sabe como é! Estou aqui na
cidade procurando emprego e a coisa está feia… Eu poderia estar assaltando,
roubando, me prostituindo, vendendo drogas, furtando as pessoas de bem, espancando
velhinhas indefesas, mas não! Eu só estou pedindo uma grana para comprar pão.”,
levantou a ponta da camiseta e apareceu o cabo de uma faca, “a senhora me
entende?” A mulher, apavorada e trêmula, abriu a bolsa e deu vinte Reais na
hora para o pedinte, ela entrou no carro e se mandou, nem fez a feirinha de
Domingo.
         Contei
para o Humilde que meu dono para ganhar vinte Reais tinha que vender uma caixa
de chuchu e ralar muitos dias em baixo de sol e chuva na plantação. Milde disse
que meu dono é um otário e que otário tem mais é que se ferrar. Fiquei magoado,
pois meu dono é uma pessoa honesta, mas para não arrumar confusão com meu amigo
da cidade grande fomos espiar o pessoal do Dito Noinha; estavam na orla do
mangue tomando banho e emborcando uma cachaça. Dois deles pareciam bem doentes,
acho eu, com os olhos vermelhos, riam alto, rolavam na grama, falavam palavrões
e mexiam com os passantes; Milde disse que eles estavam com larica… Bicho
feio a tal de larica!
         Voltei
à Feirinha do Produtor Rural. Meu dono estava bastante chateado e procurando
por um conhecido para pedir uma carona de volta ao sítio, parece que não tem
ônibus para os bairros rurais; como cachorro não pode andar de ônibus, não sei
se é verdade ou é mentira a falta de condução.
         Graças
ao Bonje encontramos o Seu Onofre. Ele é um dos 4.500 pré candidatos à vereança
na próxima eleição; gente fina o Seu Onofre! Pagou um pastel e um café para o
meu dono e ainda me deu metade do bolo de milho que estava comendo, se cachorro
votasse, meu voto seria dele!
         Seu
Onofre nunca foi de muita conversa, nem de cumprimentar ninguém e muito menos
de ajudar alguém, mas agora mudou! Está se achando um santo e descobriu a cura
para todos os males do município. Está por demais de simpático, abraça quem mal
conhece e pergunta pelo restante da família e virou sinônimo de gentileza! Até
o meu nome ele sabe: – “Omisso! Sobe no carro garoto. Não vá fazer xixi no
carpete.” Sou um cão feliz!
         Adoro
visitar a cidade grande! No sítio é a mesmice de sempre; correr atrás de
raposas, defender as galinhas das garras de um gavião, ficar horas escutando um
bando de pássaros cantarem a mesma melodia, uma chatice! Cidade grande não tem
aquele sossego horrível do sitio; na cidade tem índios vendendo palmito e
curumins pedindo um Reau e também gente jovem pedindo um Reau. Tem até gente
velha querendo um Reau! Não sei o que se pode comprar com um Reau, mas deve dar
para comprar muita coisa, pois todos querem ter um Reau para chamar de seu e
sem fazer nada para merecer. Na próxima visita farei questão de descobrir
outras novidades para contar a vocês.
Por: Omisso, um cão rural que gosta de
passear.
Gastão Ferreira/2015
        
          
        
        

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