Historia de pescador

         Agenor
gosta de pescar; nascido em Sorocaba, sua família possui uma casa de veraneio
no balneário Ubatuba em Ilha Comprida. Tirando as mutucas, Ubatuba é um paraíso;
nada como acordar com um bando de sabiás, alegres maritacas, jacus, bem-te-vis,
canários e outras espécies de pássaros saudando o nascer do dia.
         Agenor
é o filho mais velho do Seu Aristides e Seu Tides ficou famoso e conhecido na
região por ter vivenciado algo muito estranho; quando jovem, Seu Aristides com
o menino Agenor veio pescar frente ao balneário Ubatuba. Época da balsa, dias e
dias de chuva, estradinha de areia, quase meia-noite; três pessoas pediram
carona, um casal com uma criança no colo. Sentaram no banco de trás do veículo,
disseram morar no Viaregio e Viaregio ficava no caminho para Ubatuba.    
         Próximo
as Três Barras, Seu Agenor que dirigia tenso devido à lama da estradinha, notou
que o banco traseiro estava desocupado e perguntou ao filho: – “Genor! Cadê
aquele casal com a criança?”, o menino espiou e não viu ninguém, ficou
apavorado e entrou em estado de choque. O pai acelerou o veículo e só parou no
portão de casa.
         Pela
manhã Seu Aristides vistoriou o carro e encontrou uma pipa amarelada pelo tempo
sobre o banco dos passageiros; – “estranho! Genor nunca soltou pipa! De quem
será o brinquedo? Estas conchas parecem que vieram de um sambaqui! Muito
estranho tudo isso.”
         Pai
e filho programaram passar uma semana na Ilha e ao terceiro dia foram fazer
compras numa venda do Viaregio. Seu Aristides comentou com o dono do mercadinho
sobre a carona e descreveu o casal. O proprietário do estabelecimento
perguntou; – “Por acaso, o senhor encontrou uma pandorga dentro do veículo?”,
“O que é uma pandorga?”, indagou o menino Agenor.  “O mesmo que pipa, arraia, papagaio… Em cada
região do Brasil tem um nome diferente”, informou o dono da venda. Seu
Aristides confirmou a pergunta.
        
“Mauro, Miriam e Miguel, os três EME; uma triste história! Há uns vinte anos o
garoto Miguel adoeceu e Mauro e Miriam tentaram levara a criança para uma
consulta urgente em Iguape e iriam até a balsa a pé, pois condução era coisa
rara e cara na época. Não chegaram à balsa, o menino faleceu no caminho,
agarrado a seu único brinquedo, uma pipa feita pelo pai. Miguel foi enterrado
no cemitério indígena, aqui perto, e Mauro e Miriam morreram de desgosto logo
após a morte do filho. O senhor, Seu Aristides, não foi o primeiro a dar carona
aos três mortinhos.”
        
“Como assim? Mais pessoas encontraram com eles?”
        
“O menino Miguel só morreu porque não conseguiram levá-lo a tempo a um médico,
pois ninguém parou para dar uma carona ao casal desesperado. O senhor foi muito
prestativo e por isso nada de mal aconteceu com você e seu filho.”
        
“Meu Deus!”
        
“Todos os que negaram carona sofreram acidentes fatais. O cemitério fica no
final desta rua e próximo ao lagamar, entre árvores frondosas e um grande
sambaqui; vão até lá e façam uma oração para que as três almas consigam paz.”
         No
meio de uma clareira, cercado por altas árvores, o antigo cemitério indígena e
sua pequena capela parecem dormir; uma cruz de madeira, fincada sobre um grande
e verde gramado, observa a pequena praia forrada de brancos cascalhos dentre um
arco de folhagens multicor.
         Seu
Aristides ficou pasmo! No túmulo raso uma tosca cruz de madeira. Em volta da
cruz metros e metros de linha; linha para soltar pipa! “Que descanses em paz
pequeno Miguel!”, foi à singela oração. Um vento suave agitou as árvores, um
quero-quero gritou e pássaros cantaram dentre a vegetação. No ar um tremeluzir
e para quem tem olhos de ver alem da matéria, pareceu que um menino sorriu
entre dois vultos, pai e mãe, e felizes seguiram para um novo despertar.
Gastão Ferreira/2015
        

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