Coisa de humanos

         Eu e meu dono fomos à cidade domingo
passado. Na Feirinha do Produtor Rural ficamos sabendo que uma tal de Dona
Dengue chegou para ficar de mala e cuia; deve ser uma pessoa muito importante, pois
todos falavam mal dela… Coisa de humanos!
         Enquanto o meu dono se distraia
conversando com os amigos, avistei dois cães de rua adolescentes e fui bater um
papinho; Feice e Buque são irmãos e todo o domingo eles visitam a pracinha
esperando a Feirinha da Adoção começar; até o momento não encontraram um lar
para chamar de seu.
         Os cães guris tinham muitas novidades;
Feice contou que além dos gatos e cachorros abandonados, um porco sem domicilio
esteve vagando pela cidade por várias semanas, foi até mesmo fotografado na
Praça São Benedito e acabou na panela dos moradores de rua; degolaram o bicho e
fizeram um grande churrasco… Coisa de cidade grande!
         Buque, o mano de Feice, dormiu por
várias noites ao lado de uma barraquinha de camping e não conseguiu ser adotado
pelos simpáticos pedintes e moradores da casa de lona; parece que o casal de
barraqueiros está em lua de mel e não quer ser incomodado. Para provar que não
estava mentindo, fomos até a orla do mangue espiar a barraca… Coisa de
turistas sem teto!
         Muitas moitas de grama boiavam no
lagamar; estão limpando a margem do manguezal. Os trabalhadores fazem grandes
mantas com o capinzal e depois enrolam em forma de charuto e jogam na água… Coisa
de ecologistas!
         Também visitamos a estátua do Pescador;
ela está em frente ao antigo porto da balsa e com um pé trincado. Antes
enfeitava outro local onde construíram um banheiro público para executivos; os
usuários reclamaram que o Pescador ficava a espiar quem executava algo por lá e
a escultura mudou de endereço, mas a noite continua assistindo a mesma
sem-vergonhice de sempre… Coisa de humanos!
         Voltamos a Feirinha do Produtor Rural e
pela primeira vez na minha curta vida assisti a um panelaço; as pessoas estavam
reclamando da alta nos preços dos legumes. Os curumins e os pedintes de plantão
queriam porque queriam três Reais para comprar pastel… Muito estranho!
         Meu nome é Omisso, sou um cão
adolescente tentando entender tudo sobre os humanos; está difícil! Que raça
complicada. Reclamam de todos e de tudo, mas nada fazem para mudar a situação.
Meu dono acabou de trocar o seu futuro voto por dois caminhões de aterro…
Olhei feio para ele; rosnei baixinho… Ele ficou vermelho e fitou o chão;
coisa típica de humanos sem noção!
Gastão
Ferreira/2015

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