A Princesa e a festa

                Pela primeira vez no decorrer do século XXI a Princesa
do Litoral resolveu participar da festa do Bom Jesus; seu conselheiro, melhor
amigo, secretário, cabeleireiro e maquiador Josephus acompanhava a nobre figura
durante a breve estadia e como sempre a nossa dama estava eufórica;
        
Josephus! Como a plebe se mostra feliz com minha visita à cidade, todos
aplaudem…
        
O povo está aplaudindo a passagem do desfile das charretes, majestade! Estão
confundindo nossa carruagem com os demais veículos…
        
Gostei das palavras do locutor…
        
Como assim, alteza?
        
O homem está gritando que o país não está em crise…
        
Menos, majestade! Repare em quantos cavalos seguem atrás do carro de som…
        
Consigo contar uns quinze…
        
Ano passado tinha mais de cem…
        
Mas se o locutor fala é porque é verdade…
        
Esquece o locutor, alteza! Há alguns anos ele dizia aos romeiros: “- Bem vindos
à Cidade Luz” e agora mesmo acabou de falar em alto e bom som; “Bem vindos à
Cidade Santa”…
        
Pelo o que sei, ele está mentindo, pois a Cidade Luz é Paris e a Cidade Santa é
Jerusalém…
        
Conclusão! O país está em crise sim… A cidade nunca recebeu tantos
cavaleiros, são milhares e sabe o porquê disso? Porque cavalo é movido à grama
e água e não a gasolina…
        
Josephus! Vamos até o antigo porto da balsa? Gostaria de rever a estátua do
pescador…
        
Impossível! O trânsito está caótico e os cavalos apavorados com tantos
foguetes…
        
Adoro foguetes!
        
A senhora diz isso porque não tem um cachorro ou gato no seu palácio…
        
Começamos a soltar rojões para avisar a população da aproximação de um navio
pirata lá pelo ano de 1630 e a freguesia ficou encantada com a novidade… 
        
Pois é! Até hoje quando soltam foguetes a plebe murmura; alguém está aprontando
alguma coisa!
        
Você é hilário, Josephus!
        
Que nada alteza! O Zé-povinho sabe das coisas. Foguetes? Ou é droga que está
chegando, ou é alguém tentando aparecer à custa do povo…
        
Você só sabe reclamar, Josephus! Até parece que nada de bom existe por aqui…
        
Engano seu, majestade! A Fonte do Senhor está uma beleza, as barracas muito bem
organizadas e o policiamento atuando dia e noite…
        
Finalmente! Que bom que reconhece que meu reino é uma maravilha…
        
Menos, majestade! O trânsito continua uma droga, os motoristas continuam
pedindo informação e os marreteiros se apossando de todas as esquinas do centro
histórico…
        
É que são milhares de romeiros, Josephus!
        
Realmente são milhares! Mas a festa acontece há quase quatrocentos anos. Será
que não aprenderam a organizar nosso maior evento turístico em todo esse tempo?
        
Detalhes, Josephus, detalhes! Pare de reclamar e vamos barraquear.
Gastão Ferreira/2015
  
    
        

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