A princesa e a lista

         A
Princesa do Litoral estava insone; chamou Josephus seu conselheiro, treinador
pessoal, cabeleireiro, confidente e melhor amigo: – “Josephus! Não consigo
dormir. Um horrível pesadelo me persegue…”
        
“Qual pesadelo?”, perguntou Josephus.
        
“Um mau sonho em que uma oncinha de garras afiadas salta da mata e tenta se
apoderar dos ovos de ouro ocultos num galinheiro…”
        
“E ela conseguiu se apossar dos ovos dourados escondidos no aviário?”
         -“Desta
vez não! Quatro valentes lobos guarás a impediram.”
        
“Meu Bonje! Estes chacais não dão sossego; qual será a próxima calamidade a nos
afetar? Ainda lembro que a cada vez que os piratas infestavam a barra do Rio Ribeira
Vossa Majestade tinha um mau sonho.”
        
“Quando o porto assoreou foi a mesma coisa! E também quando abriram o Valo
Grande, quando proclamaram a república, quando cassaram os direitos daquele
filho… Tão, tão religioso, digamos; aquele que praticou falcatruas e…”
        
“Calma Majestade! Não é bom recordar a parte sórdida da nossa límpida e honesta
história…”
        
“Um escritor afirmou que a História quando se repete é sempre como farsa,
Josephus!”
        
“Cruz credo! Xangô mangalô três vezes… Necessitamos de um interprete de
sonhos para decifrar o mais rápido possível este enigma.”
        
“Menos, Josephus! Por que tanta pressa?”
        
“Alteza! Apareceu uma lista anônima com pretendentes ao trono…”
        
“Mostra a lista, Josephus! Eu quero ver.”
        
“Creio que a senhora não vai entender a lista! A senhora foi boa em
matemática?”
        
“Josephus! Aprendi matemática com Cristovão Colombo e Pedro Álvares Cabral…”
        
“Colombo! O descobridor da America? Bom de cálculo, mas Pedro Álvares se perdeu
no caminho das índias e deu no que deu ao descobrir o Brasil.”
         – “Cabral! Gente boa. Conquistou os
selvagens, e foi fofoca da oposição ao espalhar que Pedrinho trocava ouro e
pedras preciosas por bugigangas; mandou rezar a primeira missa, um verdadeiro
beato, mas como gostava de mandar! Naquela época eu era uma inocente criança e
tio Cristovão Colombo foi quem me ensinou cálculo e outras coisinhas; mostra
logo esta lista, Josephus!”
        
“Majestade! Na verdade não é bem uma lista de candidatos e sim de onde virão os
votos para determinado pretendente ao trono. Eis a lista!”
        
“1/3 dos homens, ¼ de mulheres, 7/9 dos asilos, 1/10 dos pastores, 1/6 dos
sítios, 1/5 dos infernos… Aí meus sais! Que lista estranha. Conseguiu
decifrá-la?”
        
“Penso que seja um código secreto! Algo que apenas irmãos de fé juramentada possam
entender… 1/5 dos infernos são os votos comprados com dentaduras, chinelos de
dedos, contas de água e luz… 1/6 dos sítios penso ser o voto dos produtores
rurais… 7/9 dos asilos são os votos da melhor idade, pois nono é avô em
italiano… 1/10 dos pastores é igual a um dízimo, ou seja, 10% dos votos virão
dos evangélicos… ¼ de mulheres, 25% dos votos serão de eleitoras…”
        
“E este 1/3 dos homens são os votos masculinos?”
        
“Não Majestade! Não tem nada a ver. É só para enganar a plebe vil; olhe esta
foto. É de 1/3 dos homens.”
        
“Meu Bonje! Eles querem voltar?”
        
“Triste reino! Não aprendeu a amarga lição.”, disse Josephus.
        
“Já falei que a plebe só é plebe porque é vil… Olhe aqui! Todos juntos e
misturados outra vez…”
        
“Resolveu o enigma do sonho, Majestade?”
        
“Sim! Pobre do galinheiro.”
Gastão
Ferreira/2015     

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