A maçã do amor

         A
Festa de Agosto chegou e com ela milhares de barracas e vendedores ambulantes.
As mocinhas esperam ansiosas à vinda dos príncipes encantados; alguns surgem
montados em fogosos corcéis, outros em potentes motos e os mais pobres
pedalando suas bicicletas.
         Pietra
sabe que durante os festejos o Amor está solto e correndo por todos os becos da
cidade; uma irmã de sua bisavó casou com o filho de um rico agricultor do sul e
foi ser feliz plantando batatas em Santa Catarina. Uma prima de sua mãe
conheceu um rapaz do Paraná e só não deu certo porque o sacana já era casado,
mas mesmo assim um pimpolho bastardo apareceu na família nove meses depois da
festa.
         A
primeira festa ocorreu no ano de 1647, um evento simples, com poucos foguetes e
nenhuma barraca; dela participaram somente os habitantes da vila e apenas um
serracimano. Ninguém reparou numa guria humilde que vendia maçãs do amor na
entrada da Fonte do Senhor. A menina era Marcela, filha da famosa feiticeira do
Morro do Pinheiro, a primeira a cair na lábia de um romeiro sedutor, que por
acaso era o moço serracimano e único estranho na freguesia naquela data.
         Marcela
deu um mau passo; pensou que arranjaria um marido e se lascou. Foi assim que
nasceu Porcina, a bruxa que até hoje assusta quem ousa abusar dos encantos de
Afrodite, a deusa do amor e protetora de quem adora uma gandaia; Porcina, para
vingar o ultraje sofrido pela mãe, inventou um encantamento que é tiro e queda
para quem prova das suas maçãs do amor; comeu a maçã? Danou-se! Paixonite aguda
na hora.
         No
decorrer das 368 festas desde aquele longínquo 1647, todo o ano uma moça se
perde, outra se encontra e algumas se dissimulam, e, todas provaram e provam da
maçã do amor vendida na entrada da Fonte do Senhor por uma garota linda e
faceira. Através de suas artes satânicas, Porcina volta a oferecer suas
guloseimas em cada nova festa e nessa data, no ano de 2015, a vítima do feitiço
foi Pietra.
         Pietra
conheceu Dito Bredi na piscina da Fonte; o rapaz saiu do banho e foi tomar água
na famosa bica e Pietra não resistiu: “- Quem bebe água da Fonte sempre volta à
cidade!”
        
Por você eu jamais sairia da cidade! Disse Bredi.
         Conversa
vem, conversa vai e foram descobrindo muitas afinidades; gostavam de dar longos
passeios, assistir ao por do sol, de cuidar de um animal abandonado e de dormir
olhando as estrelas… Chegaram ao portão da Fonte e Pietra comentou: “- Que
vontade de provar uma maçã do amor!”
        
Pena que estou de calção de banho! Meu dinheiro ficou no bolso da calça…
Falou Dito Bredi.
        
Eu pago! Disse Pietra e adquiriu duas maçãs.
         Ao
mordeu a maçã ficou tonta e descobriu na hora que Dito Bredi era apenas mais um
dos jovens e saudáveis pedintes que infestam a cidade; era tarde demais e o
feitiço fizera efeito e o morador de rua estava perdido de amor… Pietra olhou
para a vendedora de maçãs e ficou horrorizada; a simpática mocinha se
transformara completamente e aparentava ser uma anciã com cara de bruxa.
         O
que Pietra não sabia era que o feitiço só fazia efeito total se a maçã fosse
comprada com o dinheiro de um romeiro… A espertinha se deu mal! O pedinte ficou
vários dias acampado em frente da casa de Pietra. À noite lhe fazia serenatas e
de dia juras de amor eterno, e, aproveitava o restante do tempo ocioso para exigir
uma graninha aos passantes para comprar pão e infernizava a vida dos vizinhos
pedindo um prato de comida; Pietra pagou o maior mico! Desistiu de procurar um
turista para chamar de seu e em breve casará secretamente com Paulico, morador
do Costão da Juréia, acreditando que o mendigo Dito Bredi jamais a encontrará
naquelas lonjuras.
         Na
próxima festa, no ano que vem, a bruxa Porcina atacará novamente e mais uma
ingênua mocinha encontrará o seu príncipe encantado.
Gastão Ferreira/2015  
           
        
          

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