Aparício Sete Léguas

Aparício foi um vivente nascido ali pelas bandas de Caçapava do Sul, criado guaxo, pois sua mãe morreu no parto e seu pai foi um afamado domador de cavalos que passou uns tempos na estância onde trabalhava a mãe do miúdo…

O piá cresceu entre os trabalhadores da fazenda, e desde guri o que mais gostava era de um bom chimarrão, sabia servir com gosto tal bebida tão apreciada pelo povo gaucho…

Um dia durante o inverno Aparício sumiu, a peonada saiu à sua caça; revira daqui, procura dalí, e nada de encontrar o moleque, foi um Deus nos acuda; será que o guri não foi devorado por um Leão Baio, atacado por um Javali, picado por uma cobra Cruzeiro?

Estavam neste converse quando no bem longe da estrada apareceu Aparício montado em seu petiço, sem agasalho, de calça curta com suspensório, tremendo de frio…

Todos foram ao seu encontro, apreensivos apearam a criança e preocupados perguntaram:

– Aparício, o que aconteceu?

– Fui dar uma volta, espiar o dia amanhecer me perdi e acho que andei umas sete léguas para só depois encontrar o caminho de volta…

Foi assim que Aparício ganhou a alcunha de Sete Léguas, apelido que o segui para o resto de sua longa vida… Vida essa muito farta em carteados, jogo de bocha, arrasta pés, pescas, e churrascadas; tudo isso sempre envolvendo um bom chimarrão.

Mas essa história não tem nada a ver com a vida de Sete Léguas, e sim com um fato estranho ocorrido após sua morte; eles estavam pescando traíras no açude onde Aparício morreu afogado…

Como de costume fizeram uma pequena fogueira, aqueceram a água e fizeram uma roda de chimarrão…

No melhor da prosa um forte vento apagou as brasas da fogueira, e tudo escureceu, uma tempestade se anunciava ao longe, raios e trovões cortavam a escuridão, o pessoal na roda estava assustado, o mate parou de passar de mão em mão, e todos notaram que quem segurava a cuia de chimarrão era Sete Léguas…

Um relâmpago fortíssimo clareou o grupo, e a visagem desapareceu; no chão apenas uma cuia vazia escorada entre três pedras, e nada mais…

Os pescadores saíram em disparada sem olharem para trás, todos afirmaram ouvir a gargalhada típica de Sete Léguas, e desde então ninguém nunca mais pescou a noite no açude onde Aparício Sete Léguas morreu afogado.

Gastão Ferreira
– Imbé/RS/2025-

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