O homem do sapato
branco

(Lenda urbana)

         Ano
de 1992, Carnaval se aproximando. No Funil de Baixo, Seu Domingos exercendo a
sua criatividade com uma fantasia diferenciada; no Funil de Cima, a molecada
preparando a Juritica. Nas vilas o repique de tamborins, ensaios diários das
letras e enredos; – É o Boi! É o Boi! É o Boi…
         O
iguapense sempre foi muito sarrista. Perde o amigo, mas não perde a piada.
Naquela época quando alguém resolvia sair do armário, sempre diziam; – “Olha
só! Outro que saiu embaixo do Boi.”, algum tempo depois, era um tal de
“conservado” que virou moda até hoje. Ninguém nunca ficou sabendo o que realmente
acontecia embaixo do Boi, é um dos segredos mais bem guardados, mas em 1992
algo estranho ocorreu.
         Naquele
tempo, o Boi vinha da Beira do Valo empurrado pela rapaziada do bairro. O bicho
era bem pesado, e para aguentar o tranco era oferecido, gratuitamente, uma
bebida mágica; cachaça, vodca, fogo paulista, Martini, conhaque, tudo
misturado, e guardado em garrafões de cinco litros. Era beber, e ficar torrado;
eis o motivo daquele monte de gente ficar encostado no Boi, estavam todos
bêbados e não queriam demonstrar, mas vamos a sinistra história…
         Devido
ao calor, normalmente quem ficava embaixo do Boi, usava bermuda, camiseta e
nada mais. A maioria de pés descalços, poucos de tênis, todos se conheciam. O
bloco saiu de frente a banca de jornais, a multidão delirava; – É o Boi! É o
Boi! Quem é, quem é? É o Boi…
         O
caiçara é muito curioso, repara em tudo, até no que não deve; Maria Mequetrefe,
sem querer querendo, reparou que alguém estava de sapato branco… Sapato
branco? Tudo bem! Mas embaixo do Boi e de sapato branco? Aí, tem…  Foi chegando sorrateira, e entrou debaixo do Boi…
Êta curiosidade!
         O
homem estava vestido de branco da cabeça aos pés, e nos pés, sapatos brancos.
Bebia do litrão mágico como se fosse água, e trocava continuamente de lugar.
Trocava de lugar porque se aproveitava do empurra-empurra para sacanear o
companheiro que estava à sua frente; fungava no pescoço, mordia a orelha,
passava a mão na bunda, e outras coisinhas. Maria Mequetrefe estava abismada
com o descaramento da figura, e sentiu na pele quando ele começou a abusar de
sua inocência. Quando estava quase cedendo, frente ao Bar do Ambrósio, conseguiu
escapar e salvar a sua honra, já um tanto prejudicada.
         Seu
Ambrósio era o padrinho do Boi, e todo o ano ele oferecia uma champanha ao
afilhado; Maria Mequetrefe, jura que na hora em que a champanha estourou, o
homem do sapato branco saiu debaixo do Boi. Ela deu um grito; – “Zé Pelintra!
Zé Pelintra!”, os foliões olharam e nada notaram, e ela aos berros; – “Zé
Pelintra! Zé Pelintra!”
         Maria
Mequetrefe passou a ter um novo apelido; Maria Pelintra. E pelo que se sabe, ela
foi a única mulher a entrar embaixo do Boi. Iguape tem muitas histórias
estranhas ocorridas durante o reinado de Momo; fique atento, pois você pode
vivenciar uma delas, sem querer, e virar personagem de nossas lendas urbanas. 
Gastão Ferreira/2018
        
          

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