O lobisomem do Pirá
         O
prédio do Pirá sempre foi temido pelos valentes caiçaras; há duzentos anos,
quando foi construído, o medo era de que o Comendador Álvares, seu primeiro proprietário,
anotasse em seu famoso diário algum deslize que porventura pudesse ocorrer nas
proximidades. Assim as donzelas namoradeiras passavam de olhos baixos frente ao
majestoso prédio, os mancebos continham os chistes e as palavras de baixo
calão. Foi por essa época, meados do século XIX que a moda de ficar na janela
espiando a vida alheia se disseminou de maneira incontrolável na Princesa do
Litoral Sul; – “Se o comendador, que é comendador pode, por que eu que não sou
nada, não posso?”, diziam todos os mexeriqueiros de plantão. 
         A
má fama do prédio era notória; a estranha mania do comendador, aquela de ficar
na janela superior do sobrado, anotando tudo o que via, marcou na alma simples
e fofoqueira do povo iguapense, que afirma até a atualidade, que o espírito do
comendador Álvares permanece nas ruínas do casarão, e ainda cuida e anota tudo
o que acontece no imóvel.
         O
tempo passou, o prédio foi abandonado, muitas lendas urbanas surgiram;
Marineide Fuzarca, três horas da manhã, para escapar da chuva forte, se
encostou na porta do casarão, e ouviu nitidamente um grito; – “Fora daqui! Fora
daqui!”, apavorada, gelada de pavor e molhada de chuva saiu correndo; só se
deteve na esquina para dar uma espiadinha, e reparou que o jovem Amâncio Pinto
também saia correndo do prédio; – “Aí, tem!”, pensou, e ficou na espera,
escondida atrás de uma árvore, até o Pinto passar; – “E aí, Mâncio! O que
estava rolando no Pirá?”
        
“Meu Bonje, mulher! Assim você me mata de susto…”
        
“Eu ouvi os seus gritos, fique com medo e saí correndo…”
        
“Fez muito bem, pois poderia ser a próxima vítima do lobisomem do Pirá…”
        
“Não me diga! Então realmente existe o lobisomem do Pirá? Ele te atacou,
Amâncinho?”
        
“Repara aqui no meu pescoço, não tem umas marcas roxas?”
        
“Caramba! Que lobisomem tarado…”
        
“Não é o que você está pensando…Menos, tá! Eu estava no bar do clube
Primavera, coisa de meia-noite e meia, e notei um negão descendo a escada…
Ele me olhou com a cara mais safada do mundo, confesso que estremeci nas bases,
nunca vi o bofe, digo o homem, nem mais gordo e nem mais magro, e aí a
curiosidade falou mais alto e sem que ele me notasse, o segui…”
        
“Então, ele entrou no Pirá?”, perguntou Marineide.
        
“Sim, entrou e eu entrei logo atrás… Foi quando alguém me atacou…”
        
“Meu Bonje! Que horror…”
        
“Me abraçou por trás, fungando no meu cangote…”
        
“Ai, aí, ai…”
        
“Mordiscou a minha orelha, e começou a chupar o meu pescoço…”
        
“Meu santinho! E daí, o que rolou?”
        
“Daí, apareceu o vulto do comendador Álvares, ao lado do negão e gritou; “-
Putaria aqui na minha casa, nem pensar… Fora daqui! Fora daqui!”, e eu sai
correndo…”
        
“E o lobisomem?”
        
“Correu em direção ao Morro do Espia.”
         Marineide
deu um tempo, despistou o jovem Amâncio Pinto, e voltou ao prédio do Pirá, foi
salvar o negão das garras do famigerado comendador. Amâncio Pinto nunca perdoou
Marineide Fuzarca, dois meses depois ela casou de papel passado com o negão
apelidado, o lobisomem do Pirá.
Gastão Ferreira/2018
        

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