O dia em que eu matei
Dona Wilma
         Em
Iguape tem várias maneiras de se saber do falecimento de uma pessoa; a
primeira, e a mais segura, é prestar muita atenção no “alô, atenção!” da Igreja
Matriz, outra opção, é dar uma passadinha frente ao velório municipal, e espiar
a cara do defunto; um tanto radical, é verdade! Mas tem gente que a faz. O modo
mais simples é através das conversas em bares, quitandas, padarias, ou mesmo na
rua.
         A
senhora bem disposta, um tanto triste, cabelos brancos, em sua melhor idade,
sem ninguém perguntar, informou; – “Quem faleceu, foi a Dona Wilma, acabei de
passar frente à casa dela, e um caixão estava chegando.”
         –
“Dona Wilma! Que Wilma?”
         –
“Que Wilma? São tantas na cidade!”
         –
“Desculpa, moço! Mas quando se diz, Dona Wilma, só pode ser uma, Dona Wilma da
Vila Garcez…”
         –
“Dona Wilma capiv…”
         –
“Olha a boca, infeliz! Quer ser xingado? Ela mesma!”
         Dona
Wilma morreu? Que notícia triste! Mulher bem disposta, sua gargalhada vai
longe. Sempre de bem com a vida, e reclamando dos matadores de gatos. É verdade
que não tem uma “boca santa”, mas para que uma “boca santa” quando se tem um
coração do tamanho do mundo? Quando a alegria é a sua marca registrada? Quando
o olhar brilha ao avistar um conhecido? Conhecia o valor das ervas medicinais,
e até se prontificava a levar o pedinte ao local onde avistara as plantas.
         Sabia
viver, a danadinha! Não perdia um carnaval, ajudava a empurrar o bloco do Boi,
saía no Vila-tur sem medo de ser feliz, carnavalesca das melhores, no reinado
de Momo, se divertia sem traumas; os filhos não se importavam, tinham a certeza
de que a sua mãe era altamente respeitada. Gostava de caminhar, andava por toda
a cidade, e todos paravam para um dedo de prosa com ela; de trato gentil,
virava uma fera ao ouvir a palavra “capivara”, apelido debochado dessa raça
perdida, e só porque pintava o cabelo; que se danem, ou melhor vão tomar no c..
         –
Caramba! Dona Wilma faleceu. A Vila Garcez ficará mais triste, a feira de
quinta-feira mais sem graça, os cães e gatos de rua ficarão sem alguém que os
alimentavam no portão de casa… Postei no facebook a notícia… Muitos
compartilhamentos, dezenas de comentários, todos sentidos com o passamento; – “Dona
Wilma foi morar com o Papai do Céu e xingar São Pedro” … Ora! Ora! Era
mentira! Quem morreu foi Dona Ilma, e não Dona Wilma.
         Dona
Wilma não passou desta para uma melhor! Dona Wilma está vivinha da silva, é
verdade que não está vendendo saúde; coisas da idade. Fui lá na casa dela,
expliquei a mancada, pedi desculpas… Rimos muito, ganhei um abraço. Agora
falta descobrir quem é a senhora que viu o caixão fúnebre entrando na casa de
Dona Wilma. Bobagem! Vou deixar para lá… Já me mataram tantas vezes, e eu,
desta vez, cai no conto do mortinho; meu Bonje!
         A
confusão teve a sua serventia; mostrou o quanto Dona Wilma é amada pelo nosso
povo. Pena que nunca consegui entrevistar a Dona Wilma, marcamos várias vezes e
não deu certo; quem sabe agora, que continua viva e serelepe, vou conseguir uma
entrevista, e provar mais uma vez que o que conta é a humildade, o bom humor, a
gargalhada gostosa, o jeito caiçara de ser; Palmas para a Dona Wilma, uma
pessoa do bem, e que só traz alegria por onde passa.
Gastão Ferreira/2018
             

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